Qual a origem dos alimentos servidos no Prato Verde?

Qual a origem dos alimentos servidos no Prato Verde?

Os produtores Lauro Bernar, Juarez Pereira e João Volkman – fornecedores do Prato Verde – falam sobre os desafios e a realidade de quem produz alimentos orgânicos

daniela-maccali-9012-640x427Prato Verde oferece diariamente um cardápio variado, que compreende 14 tipos de saladas e 10 opções de pratos quentes – além de sobremesas e sucos naturais. Você já parou para pensar de onde vem esses alimentos? Preparamos esta matéria para mostrar um pouco sobre o que ocorre antes do alimento ser servido. A ideia é apresentar ao consumidor quem são os produtores, dar uma ideia do trabalho, da dedicação, das dificuldades e da realidade de quem produz os alimentos.

Uma das grandes preocupações do Prato Verde é servir almoços saudáveis e de qualidade. Para isso, o restaurante conta com fornecedores que são, em grande parte, pequenos produtores orgânicos, que trabalham sem fazer uso de nenhum tipo de agrotóxico. No entanto, a oferta de orgânicos atualmente ainda não é suficiente para atender toda a demanda. Determinados alimentos são difíceis de encontrar com o selo “orgânico” e, algumas vezes, o produtor não consegue produzir em larga escala, a ponto de suprir necessidades de estabelecimentos maiores.

Para entender melhor esse processo, conversamos com três pequenos produtores, que ajudam a traçar o perfil de quem trabalha para que o alimento chegue à mesa sem venenos. Confira:

LAURO BERNAR, da COOPERATIVA ARCO-ÍRIS: 20 anos com o Prato Verde

daniela-maccali-6608-533x800Lauro Divino Bernar trabalha na terra desde que nasceu. Começou pequeno, com o pai, em Cerro Grande do Sul (RS). Depois veio para Porto Alegre, casou-se e passou a dividir as tarefas com a esposa, em um trabalho totalmente manual. “A gente fazia o canteiro com a enxada, afofava a terra, passava o ancinho, molhava as plantas com regador, depois botava num carrinho de mão e saía a vender”, lembra.

Hoje, ele faz parte da Cooperativa Arco-Íris e arrenda uma chácara de pouco mais de dois hectares, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, onde trabalha com mais dois parceiros. Lauro faz a logística de venda; e seus colegas, a produção – que é praticamente toda manual. Há 20 anos nesta propriedade, eles trabalham somente com produtos orgânicos, sem veneno

“Sempre foi assim. Meu pai nunca quis usar adubo químico nem defensivo. Sei que o pessoal usa veneno por comodidade e um pouco porque o mercado exige, por incrível que pareça; mas eu nunca usei. Na feira, as pessoas vão comprar e dizem: ‘ah, mas essa folha está furada!’. ‘Sim, é natural’, respondo. ‘Mas o bichinho passou por aqui!’. ‘Passou, mas já foi embora, não tem problema não. A senhora está numa feira ecológica. Isso acontece. Aqui não tem verdura que não tenha um furinho na ponta. Isso é natural pra nós’”, conta.

Trabalhar com orgânicos, no entanto, não é simples. “Às vezes, nós perdemos algumas culturas. O inço vem forte e nós não usamos esses mata-mata. Dá mais trabalho. E também tem a praga que ataca e nós perdemos.” A vantagem, segundo Lauro, é saber que está oferecendo um produto saudável. “Isso não tem preço! É uma filosofia de vida: nós não usamos e nem queremos usar produtos químicos.”

daniela-maccali-6610-533x800Outra dificuldade é a mão de obra especializada. “Mesmo que a gente precise de uma mão de obra eventual ou fazer um serviço extra, não se consegue. É muito difícil. E a mão de obra que se tem hoje é de pessoas que já estão envelhecendo, parando de trabalhar, com problemas de coluna.” Além disso, a demanda de produtos orgânicos é crescente e é maior do que a oferta. “Se conseguisse produzir mais, venderia mais. Eu não vendo mais por falta de mercadoria”, garante.

Lauro planta 18 itens, entre eles alface, radite, rúcula, tempero verde, couve, brócolis, espinafre, cenoura, beterraba, rabanete, couve-flor, repolho e outros. Vende na feira, entrega para minimercados e restaurantes de Porto Alegre, entre eles o Prato Verde – que é seu cliente mais antigo.

“Desde que eu comecei na feira, as pessoas passavam e me perguntavam por que eu não vendia no Prato Verde. Os clientes do Prato Verde compram na feira. Depois que duas ou três pessoas me falaram isso, eu resolvi ir lá visitar. Falei com o Atos e com o Beto, que já me encomendaram: ‘Então traz segunda-feira!’, eles disseram. Segunda-feira eu fui lá e entreguei. E fiquei entregando até hoje, já faz 20 anos. Já estamos na segunda geração da família e eu continuo entregando, quatro vezes por semana. E não é pouco tempo! A gente pega amizade. Eu entro lá e me sinto em casa!”

JUAREZ PEREIRA: O GUARDIÃO DAS SEMENTES

daniela-maccali-6636Bem conhecido entre os frequentadores da Feira de Agricultores Ecológicos, que ocorre todos os sábados na Rua José Bonifácio (em frente ao Parque da Redenção), em Porto Alegre, Juarez Felipe Pereira é produtor de arroz orgânico. Possui uma propriedade em Barra do Ribeiro (RS), onde trabalha com nove tipos de arroz, que totalizam 36 variedades.

Juarez sempre trabalhou com agricultura, começando com o arrozal de seu pai. Por algum tempo praticou a agricultura química, mas há 20 anos tomou a decisão de parar de usar veneno.

“A decisão se originou a partir do exame de uma conjuntura da época. A lavoura arrozeira vivia crises periódicas, que historicamente viveu. E essas crises eram como uma febre para o organismo. Elas matavam algumas coisas e deixavam espaço para outras. No caso dos atores envolvidos na lavoura arrozeira, ela eliminava os mais fracos. E eu era a bola da vez. Eu examinei essa conjuntura e o quadro progressivo da minha saúde, que era de erosão por causa dos venenos e das relações tóxicas daquela atividade – não só no contato com o veneno, mas no contato com todos os agentes da cadeia, ou seja: a parte financeira e a parte comercial, que absorvia a nossa produção e que nos fornecia os insumos. Todas essas são relações muito tóxicas”, explica.

A primeira mudança que Juarez notou foi na saúde. “A partir do momento que passei a andar menos em banco, estar menos em contato com vendedores de agrotóxicos, com compradores da nossa produção e de todas essas relações de profunda exploração, eu consegui estar mais em torno do meu eixo. Num primeiro momento, ainda tateando, engatinhando. E num segundo momento, comecei a reconstrução. Primeiro foi um resgate do ser humano, da saúde e da dureza que essa vida anterior me impunha. A partir daí, um novo ser foi se formando, como uma borboleta saindo de dentro de um casulo, tendo a certeza da construção de um processo. Até ali, toda a atividade era de destruição. Destruição cultural, destruição da saúde, ambiental. E as relações não apontavam para construção nenhuma, pois todas elas são muito voláteis, mudam com o passar de uma brisa diferente.”

Hoje, mais que um agricultor, Juarez preserva e multiplica sementes. “Eu faço um trabalho que considero mais importante que produzir alimentos, que é proteger e multiplicar variedades crioulas de arroz. Eu sou guardião de sementes.

A mudança na forma de produzir teve suas dificuldades – mas logo representou uma nova forma de levar a vida. “Quando eu comecei a ir pra rua vender e a receber do público uma outra forma de pagamento que não só a monetária, mas essa questão do carinho, do respeito, do amor, da consideração, isso começou a reverberar em mim na forma de responsabilidade. E a guarda e a proteção de sementes se deu movida por isso, por esse amor pelas variedades, pela atividade toda, por essa causa: produzir alimentos. E a preocupação de que aquelas pérolas – essas com as quais eu me apresento hoje – não desaparecessem, para que as próximas gerações possam conhecê-las.”

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Juarez participa da feira orgânica do Bonfim desde 1999. Ele ficou impressionado com o público que frequenta o local. “Dentro dessa área, as pessoas se olham nos olhos, se abraçam, sorriem umas para as outras. Eu acho que todo o agricultor deveria conhecer esse ambiente. Todas as cadeias de fornecimento de alimentos tinham que ter essa qualidade de diálogo com o consumidor, com o outro lado da banca. Eu já ouvi dizer que existia uma época em que não existia campo e cidade. Tudo era cidade e tudo era campo, um ambiente só. A feira é uma forma de recuperar, criar e fortalecer. Ela não se caracteriza por ser só um espaço de comércio. É um espaço pedagógico para as duas partes: para os agricultores e para os parceiros urbanos.”

Aos sábados, após a feira, Juarez e outros produtores almoçam no Prato Verde. “Agente tem optado por almoçar ali não só pela qualidade do alimento, mas também por que eu acho que todo o ser humano gosta de chegar em locais onde é reconhecido. E o Prato Verde é um lugar em que não existe rotatividade dos funcionários, dos atendentes. Mais dia, menos dia, a gente acaba estabelec endo um conhe c imento, um cumprimento, um sorriso, com as pessoas que estão ali nos servindo. Isso é uma coisa ideal!”

Volkmann: produção orientada pelos princípios da agricultura biodinâmica

17431843Os clientes do Prato Verde certamente já ouviram falar no arroz Volkmann. Além de ser servido no buffet, é um dos produtos à venda no mostruário que fica atrás do Caixa. O engenheiro Agrônomo João Batista Volkmann produz vários tipos do produto, entre eles o longo fino integral, longo fino polido, grão curto integral, grão curto polido, arroz vermelho misturado com grão curto e arroz especial, que é uma mistura de grão curto integral com arroz vermelho, arroz preto, farinha e farelo de arroz e arroz quebrado.

“Toda nossa produção está orientada pelos princípios da agricultura biodinâmica, em que a unidade de produção é vista como um organismo agrícola autossuficiente em sua fertilidade do solo. A interação Terra Cosmos é estudada; e os cultivos respeitam os ritmos e impulsos vindos das diferentes constelações, mediados pela lua em seu percurso de 28 dias. Além do estudo astronômico, elaboramos substâncias a partir do esterco bovino e de cristais de ametista, que contribuem com a atuação solar diretamente no desenvolvimento das plantas.

Para a formação de húmus, são elaborados preparados biodinâmicos a partir de plantas medicinais, que são adicionados ao composto”, explica.

Toda a produção é própria. O arroz irrigado é semeado à mão, e a colheita é mecanizada. Apenas a semente básica é colhida manualmente. Após a colheita, o arroz é seco e armazenado em silos próprios; e o beneficiamento e empacotamento é feito na fazenda, proporcionando empregos no meio rural.

danielamaccali-6642-800x533Volkmann trabalha há 32 anos neste ramo, que iniciou com a responsabilidade de recuperar e manter a propriedade da família, que é apta ao cultivo do arroz. A comercialização é feita por meio da venda direta para pequenas lojas de produtos naturais, supermercados e restaurantes. Ele acredita que é possível construir uma nova forma de fazer agricultura e busca dar o exemplo na prática.

“A produção de alimentos sem agrotóxicos traz benefícios que nem todos estão percebendo. Primeiramente, na formação de húmus no solo – que têm a capacidade de armazenar dez vezes seu peso em água. Isto significa que os rios tendem a manter seu volume mais estável tanto na hora das chuvaradas, quanto nos períodos de seca. A paisagem como um todo se transforma, tanto na preservação das matas ciliares, quanto na formação de quebravento, formando um mosaico de indescritível beleza. Quando todos conquistarmos novamente a forma saudável de praticar agricultura, o turista poderá então desfrutar desta paisagem harmônica, e quando estiver com sede poderá parar em um pequeno córrego e tomar água. A família do agricultor terá sua saúde preservada, e as pessoas que se beneficiam deste alimento receberão um alimento sem contaminantes e mais rico em nutrientes minerais e vitaminas. Eu acredito que os agricultores que trabalham com agricultura saudável hoje são os precursores de como deverá ser praticada a agricultura no futuro próximo em toda a Terra.”

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